Tese sobre webradio Março 13, 2008
Posted by Manuel Pinto in Internet, Rádio.2 comments
“Webradio: novos gêneros, novas formas de interação”
Nair Prata
RESUMO
As transformações tecnológicas têm alterado profundamente a história do rádio. Além dos sucessivos avanços, duas rupturas, do ponto de vista da linguagem, marcam a história da radiofonia, justamente por causa da tecnologia. A primeira ruptura foi com o advento da TV; a segunda acontece agora, com a webradio, que aponta para um novo modelo de radiofonia. Este processo de evolução, que chamamos de radiomorfose, altera e reconfigura os gêneros e as formas de interação presentes no rádio.
O objetivo desta tese é conhecer os novos gêneros e as novas formas de interação na webradio. Para se chegar a esse fim, foi realizada pesquisa qualitativa, com corpus delimitado a 30 emissoras de rádio agrupadas em três grandes grupos (hertzianas, hertzianas com presença na internet e webradios). Em cada grupo, foram estudadas as duas categorias de análise desta tese: gênero e interação. Como parte do estudo da interação nas webradios, foi feito
ainda um levantamento sobre a usabilidade das homepages.
A partir do referencial teórico e pela pesquisa realizada, concluímos que os novos gêneros da webradio são o chat, o e-mail (mensagem eletrônica), o endereço eletrônico, a enquete e o fórum, nascidos genuinamente em meio digital. Mas também são novos, no suporte internet, os tradicionais gêneros radiofônicos hertzianos. Tratam-se de formas híbridas, nascidas da complexa tessitura digital da webradio. A webradio pode ser entendida como uma constelação de gêneros que abriga formatos antigos, novos e híbridos.
Como as novas formas de interação na webradio, podemos elencar o chat, o fórum, a enquete e o e-mail (correio eletrônico). Mas como a web é um ambiente heterogêneo, que permite mais manipulação que o rádio hertziano, as webradios disponibilizam a seus usuários várias ferramentas interativas com o objetivo de atrair e fidelizar o seu público. A principal delas, com certeza, é o próprio site, constitutivamente polifônico, marcado por vozes não apenas sonoras, como no rádio hertziano, mas também estruturalmente formado por textos e imagens.
Palavras-chave: webradio, gêneros, interação, linguagem, tecnologia
ABSTRACT
Technological transformations have profoundly altered the history of the radio. Apart from the consecutive progress, two ruptures from the point of view of language have marked the history of radiophony, precisely because of technology. The first rupture happened with the onset of TV; the second is in progress now, with webradios, which points to a new model of radiophony. This process of evolution, which we call radio morphosis, alters and reshapes the genres and forms of interaction present on the radio.
The aim of this thesis is to understand the new genres and the new forms of interaction on webradios. To do this, a qualitative research was performed, with a corpus restricted to 30 broadcasting stations, classified in three large groups (hertzian, hertzian with presence on internet, and webradios). In each group, the two categories of analysis of this thesis were studied: genre and interaction. As part of the study into interaction on webradios, a survey about usability of homepages was also done.
Based on theoretical reference and the research performed, we concluded that the new genres of webradios are chats, e-mails (electronic messages), electronic addresses, surveys, and forums, all genuinely originated from digital media. But the traditional hertzian radiophony genres in internet environments are also new. They deal with hybrid forms, born from the complex digital structure of webradios. The webradio can be understood as a constellation of genres, which shelter old, new, and hybrid formats.
As new forms of interaction on webradios, we can list chats, forums, surveys, and e-mails (electronic mail). But as the web is a heterogeneous environment, which allows more manipulation than the hertzian radio, webradios make available various interactive tools to their users with the objective of attracting and inducing the loyalty of their public. The main one, is certainly the site itself, determinatively polyphonic, marked by voices not only producing sound, as on the hertzian radio, but also structurally formed by texts and images.
Key-words: webradio, genres, interaction, language, technology
A TVI, a SIC e as recomendações da ERC Março 7, 2008
Posted by Felisbela Lopes in Regulação, Televisão.2 comments
Os canais generalistas privados têm hoje uma programação nocturna essencialmente de entretenimento. O que, de certa forma, não vai ao encontro da Lei de Televisão e, sobretudo, de duas deliberações da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC): uma de Junho de 2006 e outra de Dezembro de 2007. Esses documentos falam de um horário nobre com oferta televisiva diversificada onde se deveriam integrar programas de debate e de entrevista autónomos dos noticiários das 20h00. Até agora, essas recomendações estão por cumprir. Beneficiando de uma conjuntura de alguma conturbação por que passava a instância reguladora dos media (no início de 2006, a Alta Autoridade para a Comunicação Social dá lugar à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, com outras competência e diferentes membros), os canais generalistas privados vêem as suas licenças de TV renovadas em Junho de 2006, sem passarem por aprofundados estudos que salientassem aquilo que foram os seus primeiros quinze anos de actividade. Mesmo assim, a ERC, juntamente com essa renovação (praticamente administrativa), produz uma deliberação (1-L/2006 com a data de 20 de Junho) que fixa algumas linhas de programação para a SIC e para a TVI. Uma espécie de caderno de encargos. Por exemplo, “emitir um mínimo de três blocos noticiosos diários; emitir programas de informação dos subgéneros debate e entrevista, autónomos em relação aos blocos noticiosos diários, com periodicidade não inferior a semanal; diversificar os géneros da programação emitida no chamado horário nobre (20h00-23h00)”. Os canais privados consideraram essas orientações abusivas. A TVI recorreu, nesse tempo, para os tribunais. Sem, no entanto, conseguir introduzir modificações de fundo na deliberação em causa.
Antes de 2007 terminar, a ERC produziu um outro documento deliberativo dirigido à TVI, reafirmando grande parte daquilo que havia determinado em Junho de 2006, obrigando aquela estação privada, por exemplo, a diversificar a oferta televisiva em horário nocturno (20h-23h) e a emitir programas de debate e de grande entrevista, autónomos do “Jornal Nacional”. Isto está ainda por cumprir, embora a TVI tenha já anunciado novidades na informação. Será este, decerto, um assunto incómodo para a TV privada.
A 9 de Novembro de Administração da TVI, invocando “o direito de resposta”, publicou no jornal “Público” um artigo (sem assinatura personalizada) em que procurava desmentir dados da minha tese de doutoramento (aprovada por unanimidade) e de um posterior estudo académico sobre programação televisiva de minha autoria. Nesse texto, a TVI afirmava que a sua oferta televisiva em horário nobre “abrange diversos géneros tais como a informação regular, as grandes reportagens, a ficção nacional, o humor e o entretenimento”. Para além de confundir o que constitui um género televisivo, o texto passa ao lado do essencial: o nosso último estudo, citado pelo “Público”, aludia à falta de programas de debate e de grande-entrevista, em horário nobre, na grelha de 2006. Que, ainda hoje, não originaram formatos regulares e autónomos dos noticiários da noite das estações privadas. A Administração da TVI garantia ainda haver desconhecimento de que “em Março de 1999, a TVI apresentou um projecto de alterações ao seu projecto inicial, o qual foi homologado pela Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) em 26 de Maio de 1999”. Nem eu ignorava esse dado (apresentado no meu livro “A TV das Elites”), nem decerto ficará bem à TVI omitir que a ERC lhe renovou, em 2006, a licença de TV mediante críticas ao “desaparecimento de programas de entrevista e de debate”, ao “desaparecimento da programação infantil nos dias úteis”, à “praticamente inexistente” programação cultural, etc.
Apesar de (ainda) longe das recomendações da entidade reguladora, os canais generalistas privados terão de alterar a oferta televisiva em horário nobre. As deliberações da ERC (1-L/2006, de 20 de Junho; e 2/Lic-TV/2007, de 20 de Dezembro) impedem-nos de programar, diariamente, apenas ficção após o noticiário das 20h00 e até bem perto da meia-noite. É claro que SIC e TVI poderão colocar em antena uma informação-espectáculo, impulsionadora do “voyeurismo” e não muito distante das “novelas da vida real” que até então inundaram as grelhas. É claro que a SIC e a TVI poderão encher os “plateaux” informativos com uma confraria de convidados que se tem perpetuado no poder (sobretudo político) na exacta medida em que garante lugar cativo nos estúdios de televisão (e vice-versa). Não será isso, talvez, que mais agradará aos jornalistas dos canais de TV, nem será isso que mais favorecerá o espaço público por onde todos nós andamos. Como o passado recente comprovou, informação de interesse público poderá não ser sinónimo de audiências residuais. Beneficiaríamos todos com projectos de qualidade informativa. Nos diferentes géneros de informação televisiva.