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Cuidado com a informação Abril 27, 2008

Posted by Manuel Pinto in Jornalismo, Ética.
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As primeiras imagens deste filme brasileiro com pouco mais de um minuto de duração apresentam um conjunto reduzido de pontos pretos de diferentes tamanhos. Uma voz off inicia uma pequena narração: “Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho a seu povo”.

Muito lentamente, os pontos pretos vão-se reduzindo e multiplicando. A voz continua a narrar: “Em seus quatro primeiros anos de governo, o número de desempregados caiu de seis milhões para novecentas mil pessoas”.

Os feitos desta figura política, cuja identidade por enquanto se ignora, continuam a ser enaltecidos: “Este homem fez o produto interno bruto crescer 102% e a renda per capita dobrar. Aumentou os lucros das empresas de 175 milhões para 5 bilhões de marcos. E reduziu uma hiper-inflação a no máximo 25% ao ano”.

Além de ser capaz de promover – e com que extraordinários resultados… – a recuperação económica de um país, o protagonista parece ser um esteta a julgar pelo que, seguidamente, se afirma: “Este homem adorava música e pintura, e, quando jovem, imaginava seguir a carreira artística”.

Aqui chegados, a redução e a multiplicação dos pontos pretos acelera-se para formar um retrato a preto e branco que permite identificar tão extraordinária personagem. Trata-se, afinal, de um dos mais temíveis criminosos do século XX: Adolf Hitler.

A apresentação da imagem de tão sinistra figura histórica, depois de terem sido feitos tantos encómios à sua actividade política, dita uma conclusão: “É possível contar um monte de mentiras, dizendo só a verdade”; e uma recomendação: “Por isso, é preciso tomar muito cuidado com a informação e o jornal que você recebe”.

O filme termina mostrando o título de um jornal e enunciando uma espécie de slogan: “Folha de São Paulo, o jornal que mais se compra e o que nunca se vende”. Realizado em 1987, este brevíssimo filme, que pode ser visto no YouTube (http://br.youtube.com/watch?v=6t0SK9qPK8M&NR=1), é inesquecível.

É, de facto, difícil explicar tão eloquentemente por que é que mostrar apenas uma parcela da realidade pode muito bem ser uma forma de mentira. Para não se ser ludibriado por ela, torna-se necessário, como diz o anúncio, ter muito cuidado com a informação que se recebe. Tarefa difícil, evidentemente.

É que “há centenas de formas de manipular notícias na imprensa. E outras centenas na rádio e na televisão. E sem dizer mentiras”, afirmou Ryszard Kapuscinski, durante um diálogo com os participantes num congresso realizado em Itália há alguns anos, transcrito em Os cínicos não servem para este ofício. Conversas sobre o bom jornalismo, um magnífico livro, de leitura muito acessível, acabado de editar pela Relógio d’Água.

A conversa permite que este jornalista exemplar dê conta dos tipos de manipulação a que o jornalismo está hoje sujeito. Um deles não obriga a mentir. Os meios de comunicação social, e particularmente os que mais influenciam um vasto número de pessoas, “podem limitar-se a não reflectir a verdade. O sistema é muito simples: omitir o assunto”.

Ryszard Kapuscinski observa que “a maior parte dos espectadores da televisão recebem de modo muito passivo o que lhes é dado. Os patrões das cadeias televisivas decidem por eles o que devem pensar. Determinam a lista de coisas em que se deve pensar e o que se deve pensar sobre elas”. Além disso, prossegue o jornalista, não se pode esperar que o telespectador médio realize estudos independentes sobre a situação do mundo. “O homem médio, que trabalha, regressa a casa cansado e quer simplesmente estar um pouco com a família, só recebe o que chega até ele naqueles cinco minutos de telejornal. Os assuntos principais que dão vida às ‘notícias do dia’ decidem o que pensamos e o modo como o pensamos”.

Este procedimento, como inúmeros estudiosos dos media constantemente sublinham, constitui “uma arma fundamental na construção da opinião pública. Se não falarmos de um acontecimento, este simplesmente não existe. Com efeito, para a maior parte das pessoas, ‘as notícias do dia’ são a única forma de conhecer alguma coisa do mundo”.

Várias são as consequências, mais ou menos perniciosas, que daqui decorrem. Ryszard Kapuscinski sublinha um dos aspectos mais danosos: “O problema das televisões e dos meios de comunicação em geral é que são tão grandes, influentes e importantes que começaram a criar um mundo só deles”. E este mundo, como nota o jornalista, tem muito pouco a ver com a realidade. “De resto, esses meios de comunicação não estão interessados em reflectir a realidade do mundo, mas em competir entre si. Uma estação televisiva, ou um jornal, não pode permitir-se não ter a notícia que o seu concorrente directo tem. De modo que acabam por observar os seus concorrentes em vez de observar a vida real”. Nesta constatação crítica, há também uma proposta: é necessário observar a vida real, valorizando uma agenda informativa menos dependente dos money-maker e menos focada em factos e em personagens insignificantes; uma agenda informativa que seja útil para a efectiva melhoria da vida das pessoas.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
Coluna “Os dias da semana”
in Diário do Minho, 27 de Abril de 2008

Comentários»

1. “Cuidado com a informação” « Jornalismo e Comunicação - Abril 27, 2008

[...] de leitura muito acessível, acabado de editar pela Relógio d’Água. (…)”. [Ler o texto completo de Eduardo Jorge Madureira Lopes, hoje publicado no Diário do Minho, no blogue de [...]